quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Vão voar os meninos

Donde vim...

ANDEJO II 

(Interrompendo a fala do outro andejo) 

– meu alento. A procissão segue com um andor sobre as costas. Um andor, flores do mato. Um andor, Nossa Senhora. Um andor, Menino Jesus. Um andor, São José. Um andor, Santo Antônio. Um andor, meninos tantos. (Olha ao longe, atenta as distâncias) Morenos de luz de fim de tarde. Meninos feito anjos. Com asas de isopor. Brancos como a manhã. No colo das mães. No chão batido. De pés descalços, no chão do mundo. Só faltam voar.

(Os dois andejos dizem admirados)

Horas dessas vão voar os meninos.

ANDEJO II
Horas dessas no céu das capelinhas, para cima dos sinos, horas dessas vão voar os meninos. E no alto, como estrelas, vão voar os meninos. Como pipa. Como araçari-de-bico-branco. Araçari-de-pescoço-vermelho. Araçari-mulato. Choquinha-de-peito-riscado. Formigueiro-de-yapacana. Maracanã-guaçu. Vão voar os meninos.

Vida é o que a vista traz para dentro dos olhos e guarda na alma | Texto dramatúrgico de Rudinei Borges