sexta-feira, 1 de maio de 2015

Rapto

o rio o rapto um dia pela manhã teus seios o meu cigarro gosto de café na boca gosto do teu hálito seco espere por favor e vá se puder vá para perto do mar e volte co’olhos do teu pai volte cedo e durma e beba a tua cachaça a tua garapa só posso tecer só posso armar ruas suspensas barquinhos de papel e o sol de giz branco o cais de giz branco o céu de giz branco o teu pai de giz branco não sou a tua mãe o teu dia-cego o teu dia-cão meninos vão correr pela areia nus pela areia e ondas e sal e o sol branco de giz meninos negros de Henri Cartier-Bresson meninos-meninos do teu tempo-luz do teu tempo-cal o menino e um bambolê erês-erês do teu tempo-cruz do teu tempo-réu quando teu pai voltar vamos rezar juntos no alpendre vamos dormir juntos no areal vamos correr juntos pela estepe vamos plantar mudas de jacintos um beija-flor no altar dos erês uma menininha vestida de anjo na procissão de Santa Ana uma menininha para São Joaquim vamos descer a Rua Victor Campos vestidos de arlequim vamos em passos céleres pela Avenida Getúlio Vargas co’uma dama-da-noite entre os dedos na mão co’um rosário entre os dedos na mão e as luzinhas coloridas no alto da catedral e o teu pai num andor o teu pai o meu santo o teu pai o meu pastor o teu pai a minha gira o teu pai meu exú o teu pai meu caminho o teu pai no arrozal o teu pai co’um jamanxin nas costas o teu pai livre sem algemas o teu pai no cais na Vila Caçula o teu pai pelo Jurunas um folião o teu pai um romeiro barcos n’olhos do teu pai casinhas de madeira e a corda e o círio e a Virgenzinha de Nazaré e Belém e o Rio Jordão espere o rio o rapto um dia pela manhã teus seios o meu cigarro gosto de café na boca gosto do teu hálito seco espere por favor e vá se puder vá para perto do mar e volte co’olhos do teu pai co’o coração da tua mãe não esqueça de voltar co’o coração da tua mãe

Rapto | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Josef Koudelka

Mulher em Saksakiyeh




















dentro de mim
uma mulher se esconde
inofensiva dentro mim
uma mulher me contempla
com o olhar cálido
do oriente distante
uma mulher se revela
clara dentro de mim
na penumbra do escombro

dentro de mim
uma mulher chora
uma mulher em Saksakiyeh chora
inunda paredes
flâmulas canhões
dentro de mim
o coro de metralhadoras dispara
um cântico de morte

e antes que eu possa fugir
reprimir
revidar
dentro de mim
uma mulher grita

uma mulher em Saksakiyeh
grita
o grito de todas as mulheres
dentro de mim


Mulher em Saksakiyeh | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Herbert List

Asa





















o homem precisa de casa
como o cão precisa de casa
como o tártaro e o verme e a aurora
e a poeira cósmica e os tanques
que roubam do peito a chuva e o estio
o homem precisa de casa
como o cão precisa de casa
e como o cão rosna aos ossos
a casa que levaram dos sonhos
a casa que apagaram das mãos
o oco que não é asa
a arma que o homem não tem

Asa | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Josef Koudelka

Ferramenta










um homem
nunca é
um homem
         é
sempre
um martelo
um prego
uma maçaneta
uma porta
algo
meio tártaro
meio azougue
algo
meio dia 

Ferramenta | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | August Sander

Anel de Saturno




















Pessoa é para o que nasce.
Mas para que nasce uma pessoa
se quando nasce uma pessoa
nem é pessoa ainda?
Pessoa é invenção: anel de saturno.
Pessoa é coisa que a gente cria.
Pessoa não nasce para coisa alguma.
A gente é que diz:
pessoa nasce para ser feliz,
pessoa nasce para trabalhar,
casar/ter filhos/criar filhos.
Mas que será da pessoa
se não quiser trabalhar,
casar/ter filhos/criar filhos?
Que será da pessoa
se quiser ser vento-poeira-chão?
Se quiser ser correnteza-estrada-estirão?
Se quiser amar um-dois-três amores?
Se quiser amar ninguém?
Se quiser partir-voltar?
Se quiser ser o que quiser
e mais nada?
Que será da pessoa
se não quiser ser pessoa?
Se quiser ser andorinha e voar?
Se quiser ser beija-flor?
Se quiser ser arapuca?
Que será da pessoa?
Será pessoa a pessoa?

Anel de Saturno | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Josef Koudelka

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Âncoras de navios que vão mortos pelo mar
































nada mal
re(mar)mos
entre
ret-
alhos
duma doença
que apavora
o peito
e dança
nos olhos
dum menino
duma sereia
uma doença
que se alastra
pelo cais da
cidade
em versículos
no cair
da tarde
leito do rio
nada mal
a(mar)mos
entre
espinheiros
o dia que nasce
no deserto
ao longe
raios
que vêm
do pacífico
um veleiro
em isla negra
uma mulher
com o sol
prisioneiro
num
espelho
uma bailarina
voz
dos rochedos
nada mal
derrar(mar)mos
entre
cântaros
gotas d’ondas
cordoalha
leme
e sal
em almudes
feituras
do aguaceiro
desenhos
de chuva
em lenços à deriva
do tempo
arma-
doria
preces de ventos
em bússolas
de adeus
nada mal
retor(mar)mos
entre
sussurros
a salmo-
dia
das horas
agras
de dentro
a fora
deprecar
aos céus
pelo mundo
pela sede
dos nevoeiros
âncoras
de navios
que vão
mortos
pelo mar


Âncoras de navios que vão mortos pelo mar | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014| Foto | Roberto Linsker

Cavidade

































: vi o sol se dissipar pelas terras: não era noite: era manhã: um átimo em março: o menino riu-se: vamos  ao deserto (ele disse) quando cessar a tempestade vamos ao deserto (ele disse): folhas secas em alamedas: no outono: quando o mar despejar o sol em desamparo veremos o rapto das roseiras: teremos anos inteiros pela frente: e os sinos e os sinos e os sinos e os sinos: você me disse: vá embora sozinho: não posso ir embora sozinho: não posso deixar cântaros (vazios) sobre tábuas: vamos alumiar frestas do sobrado velho com candelabros ávidos de consternação e partida: toda estrada é  voz de Deus que se alastra pelo areal: toda estrada é cavidade:  

Cavidade| Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Wilhelm Von Gloeden (1856-1931)

Vozes e rochedos

































nunca senti
a fome dos homens
a sede dos homens
só a febre estanque
dum cão solto pela cidade
um rapaz de dezenove anos
olhos de fagulha
armando arapucas sob passarelas
a voz de Deus
miúda no infinito
um pássaro sem asas
armado na fiação das esquinas
a dor amargosa
das luzes caídas nos viadutos
um querubim
em pé no elevador
uma bailarina
com ramos de jacintos
diante do mausoléu
um arlequim
no peito alado dos arranha-céus
a estátua de dois meninos abraçados
voltando de madrugada para casa
nunca senti
o sono dos homens
só o silêncio da maré ao longe
a maré deitando espinhos
sobre rochedos
só a maré em estilhas
me afronta
voz de Deus que sussurra
volteio e ventania

Vozes e rochedos | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Wilhelm Von Gloeden (1856-1931)

Ervas do campo













































1.
guardar
olhos
fagulhas
bugalhos
espinhos
ervas do campo
uma manhã de agosto

2.
guardar
semblantes
cegos
no espelho
esôfagos
estômagos que cantam
corpos
ausentes

3.
guardar
marés
cantos de araponga

4.
guardar
no céu a vastidão
o aluvião do desterro
feito andorinha

Ervas do campo | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Wilhelm Von Gloeden (1856-1931)

Banzeiro



































precisava
encontr(ar) tendas e ventres 
(ar)mados
seguir
rastros
dormir
afoito
volt(ar)
cedo
para casa
olh(ar) firme
o retrato
de Gian Giacomo Caprotti
entre foices
na escrivaninha
precisava am(ar) vozes de corpos desc(ar)nados olhos cruciantes
lábios
infecundos 
a manhã escura que vi nascer nos teus braços
precisava
ouvir
bramidos
cultiv(ar) asas
de alcatrazes
no alpendre
pele bege-rosada espelho atado num alt(ar) em chamas

Banzeiro | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Wilhelm Von Gloeden (1856-1931)