Dramaturgia

Quem se debruçar sobre a obra de Rudinei Borges vai encontrar em seus escritos dramáticos, alumiações, andorinhas, alumbramentos, estiradas, auroras, pelejas, lamparinas, que vão e voltam em frases curtas, por vezes cortadas a seco, que verbalizam e quase tornam palpáveis acontecimentos da alma, como no trecho final do prólogo da peça Dentro é lugar longe:

MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO: Dentro é passagem: travessia: dentro é coisa que a gente ainda não viu: dentro é coisa que vai nascer: estar por vir: dentro é o dia deitado em terra firme: é várzea: dentro é lugar longe.

MENINO: Assim é que começo, terminando. Com o olho feito uma lagoa – cheio d’água: com a luz das estrelas no céu da boca. É que ontem faz parte do hoje. & hoje faz parte do amanhã. Tudo que foi-vem, tudo é estirada: caminhada das distâncias. Perco-me nas distâncias. Mas confesso: perder-se é encontrar-se. [Sussurros] Só aquele que se perde encontra andorinhas.

Se Dentro é lugar longe é a peça de um poeta que aprendeu a chorar, como diz Rudinei, Agruras, ensaio sobre o desamparo é a dramaturgia de um autor que teve um profundo encontro com a angústia humana.

Há (...) uma característica presente em toda a dramaturgia escrita por Rudinei: a ação cênica sempre parte da palavra. (...) A dramaturgia dele é uma espécie de poesia em ação.

A obra construída por Rudinei parte de uma inquietude, tanto em relação ao uso da memória, por não se esquecer de um passado distante, mas sempre presente, quanto no sentido de querer cavoucar sofrimentos e angústias humanas.

“A memória da meninice é um tema que em mim não se esgota, tenho muito a escrever sobre isto”, diz. “Algumas pessoas – como eu – são enveredadas para a infância de maneira tão sagaz que é quase impossível o distanciamento de lembranças que, tomadas de boniteza, permeiam o presente quase como se tivessem sido vividas ontem mesmo ou há duas horas. Assim, o que muitos tratam como passado eu entendo como ofício: acocorar-se diante da infância é um ofício dos mais ardorosos”.

Mariana Marinho | Em quatro atos, perfis de jovens dramaturgos paulistanos | 2014


ESCRITOS DRAMATÚRGICOS DE RUDINEI BORGES


Vida é o que a vista traz para dentro dos olhos e guarda na alma | 2014
Yahweh | 2014
Valentia | 2014
Chão de terra batida (breve adaptação para teatro) | 2014
Agruras, ensaio sobre o desamparo | 2012
Oráculo de manjedouras, cortejo | 2010