quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Adentro entre poeiras

ANDEJO I
Donde vim toda valia vos ofereço. É gole d’água que vos preparo. É segredo, mas eu conto. Se não disser tudo, tenho reparo. É para lá, em mim, que regresso. Donde nem um fio de cacimba podia ser deixado. Assim, vazio de tudo, de mãos abanando, atravesso tudo quanto é estirada. (Olha ao longe, atenta as distâncias) Vou de arroio em arroio. Deus-dará que me guie. Se eu me perder me perdoe. Volto donde parei e vos digo de um tanto sem atropelos. Só tenho como acerto a minha fala e vazões de gentes que moram em meus olhos. É pouco. Mas é tanto.

ANDEJO II
Nossa mãe, que é compadecida, afilhada de Nossa Senhora, que me olhe. Na vida o tesouro que se junta, nem antes nem agora, nem em juramento, é alumbramento. A vida é voz de Deus e do capeta. Arca de tudo quanto é perda e conquista.

ANDEJO I 
Donde vim é passagem. Adentro entre poeiras. Para lá das nuvens que declinam ao fim dos campos. Donde vim é travessia. Passagem de toda ventura e combate. Cantiga de Alzira. Reza de Teodolina. Sussurro de Rosalva ao pé do oratório. Donde vim é Ave-Maria. Creio em Deus Pai. Salve Rainha.

ANDEJO II 
Donde vim é norte. Cais de toda partida. Anuvieiro de barco e canoa. Locomotiva. Donde vim é estrada. Armada. Marcada para morrer. Para viver. Não sei. A vida é que sabe.

ANDEJO I 
Donde vim é norte. Norte é distância. Chão de fé e peleja. Chão de gente que abraça a vida com toda força e coragem. De gente que não se avexa em perder, tenta. Alivia. Teima. Alcança. Anda defronte do cipoal. De gente que segue – em bando – feito arigó pelo mundo.


Vida é o que a vista traz para dentro dos olhos e guarda na alma | Texto dramatúrgico de Rudinei Borges