quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Carta para Rosalva Borges

Tenho guardado todo o mistério, minha mãe. Por um instante sentei no chão da sala. Tudo está escuro e silencioso. São 3 horas da madrugada e somente eu estou acordado, como costumava fazer em nossa casa em Itaituba. Na nossa pequena casa no beco da Sétima Rua eu inventava poetas. Tudo o que é belo e sagrado está agora diante de mim como num álbum de fotografia: o semblante da vó; a água fria da cacimba; o cheiro do barro; os jambeiros e mangueiras; os buritizais; as notícias de Ananás; os parentes em Manaus; a capelinha de Nossa Senhora das Graças; a estrada enlameada da vicinal; os festejos de Sant’Ana; a mata e o rio Tapajós; o cemitério Santo Antônio; o Colégio Isaac Newton; a prefeitura velha. Tudo o que eu havia guardado na arca do esquecimento apareceu num cheiro forte de jambu e copaíba. Numa cantoria breve. São as mulheres na procissão, a minha gente amazônica, o meu povo moreno.

Estão todos aqui. Depois que passei quase três dias dentro de um ônibus numa viagem de São Paulo para o Pará todos os encantados da mata vieram morar nos meus olhos. E mesmo que eu queira não posso negar que qualquer coisa árdua acontece quando chego ao cais, quando os barcos vão para além das ilhas ou quando atracam. São os mesmos barcos. Talvez seja isto que me faça retornar a este tempo que não foi: a infância. Esta fortaleza longínqua e próxima sob os meus pés, no chão destas casas, onde servem suco de cupuaçu em copos de alumínio.


Eis aqui o livro que neguei, as palavras que deixei escapar. O menino do beco trouxe as suas memórias. E um dia talvez outros meninos vão lê-las sentados no trapiche, quando for inverno e só restar o aconchego da rede. Reuni uma mistura de poema, conto e crônica. Resgatei relatos que escrevi entre treze e dezenove anos. Tempo em que ainda morava em Itaituba. Todas as cores, ritmos e cheiros são locais.

Desejo que a senhora fique orgulhosa de cada palavra, de cada imagem. É a alegria pouca que posso oferecer.

Com amor.

Rudinei Borges |  Carta de abertura do livro Chão de terra batida, 2009