quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Princípios do mundo

Vida é mistura de quanto tudo é coisa: não há para fugir paragens outras. A gente olha para os lados do rio e para os lados dos campos: compadecer-se é o jeito: Deus do céu, escapei. Eis-me aqui, de corpo em pé, no mundéu, entre emaranhados de chão e rumos: voz de Deus que vem das estradas. Vida é criatura que deve ser amansada. E mesmo amansada, no repente das horas, galopeia: a gente só enxerga do galope a poeira dentro do vento do meio dia e mais nada. E quanto tudo é coisa volta para os princípios do mundo. A gente tem que erguer vez outra pedra por pedra, tijolo a tijolo.

(Suspira fundo)

Já comecei tudo do começo umas trezentas vezes. E não sofro de arrependimentos. O segredo da vida é que não há modos de escapar: é preciso viver. Só isto. Nem uma mão de terra a mais, nem uma mão de terra a menos. O jeito é seguir o estirão com foices e rezas para carpir o mato, quando tudo é juquira. Todavia, o que desanima na vida é a desvalia da justiça, quando homens de suposta maestria danam a crescer sobre as gentes: uns por aí sem ter o que comer e outros por aí sem ter onde deitar a cabeça. Onde já se viu tamanho desordenamento? Uns têm mais e outros menos e o mundo segue como se nada tivesse a acontecer. A gente pensa que escapa, mas não escapa: vida é para olhar de frente.

Vida é o que a vista traz para dentro dos olhos e guarda na alma | Texto dramatúrgico de Rudinei Borges