quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Dentro é lugar longe - Breviário 2


Carne febril das tardes – Breviário 2
                                                                      
 [A menina abre a mala surrada e mostra a fotografia da avó]

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Minha avó morreu num dia bonito. Era um domingo chuvoso. Eu não tinha ninguém para me acompanhar até o hospital. Não sabia andar de ônibus. Mesmo assim fiz uma viagem até o hospital. Fui lá & conversei com minha avó. Foi a primeira vez que eu disse: Vó, eu te amo. Arrumei o cabelinho da minha avó. Dei um abraço forte em minha avó. Levei minha avó até a cama. Tinha certeza que minha avó sairia do hospital no dia seguinte. Fiquei o tempo que podia no hospital. Quando fui embora, ao me despedir, minha avó perguntou: A AVÓ – Que horas são, filha? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Dezesseis horas, vó. A AVÓ – Quanto tempo você vai demorar para chegar em casa, filha? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Duas horas, vó.  A AVÓ – Então, vai logo. Sua viagem é longa, filha.  MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Sei, vó. Está muito longe, vó. A AVÓ – Apaga a luz que agora eu vou descansar, filha. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Quando cheguei em casa, às dezoito horas, quando cheguei em casa, o telefone tocou. Minha avó havia falecido, às dezoito horas. Não estava mais comigo. MENINO – Quando a menina chegou em casa, às dezoito horas, quando a menina chegou em casa, o telefone tocou.  A avó da menina havia falecido, às dezoito horas. A avó da menina não estava mais com a menina. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – A minha avó resolveu repousar como quem dorme no céu entre estrelas. Como quem brilha miudinha no céu entre estrelas. Como quem brilha miudinha sobre o mar. Minha avó-menina, minha avó resolveu repousar. [Suspensão] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – lembrar
é acocorar-se
dentro da vida
como quem
acocora
na ventania
como quem
olha o céu
e as estrelas do céu
como quem
guarda nos olhos
uma estrela
miudinha
entre
MUNDARÉU
de estrelas
lembrar
é guardar
o lugar certo
onde esta estrela
brilha
lembrar
é cultivar
com o olhar
esta estrela
todas as noites
é enamorar-se
desta estrela
de tal modo
que esta estrela
só dormirá
miudinha
no céu
depois
de olharmos
para ela [Suspensão. Surge um
menino com uma estrela dentro duma garrafa] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – [Sussurra] Menino
Onde você encontrou esta estrela
                                                                                             Menino? [com o olhar entristecido] MENINO – na minha terra. Encontrei esta estrela na minha terra. Sempre que as mães seguem para o alpendre das casas & fazem cafuné nos filhos, nos meninos, surge uma estrela no céu. Ando com esta estrela numa garrafa para não esquecer de onde vim, o que fui, o que sou. [Todos aparecem com estrelas dentro de garrafas] Para não me perder na noite escura-escura. Muitos já se perderam no caminho. No breu do mundão. Não quero me perder. Mas agora-agora estou na estrada: de volta. De volta para casa. Para reaver nossa mãe, nosso pai (que já foi) & os meninos que corriam comigo nos campos de asfalto. & quando eu chegar, chegar outra vez na terra de onde vim, vou soltar esta estrela. Esta estrela vai brilhar no céu, sobre nossa casa. & só nascerá outra estrela quando a mãe for ao alpendre, quando o menino deitar no colo da mãe, quando a mãe tecer cafunés, quando o menino chorar, quando o menino bradar aos ventos: mãe, encontrei. Encontrei a claridão. [Suspensão] Só nascerá outra estrela quando a mãe do menino disser: A MÃE – Filho, se tens claridão, mostra a tua claridade. [Surge uma multidão levando estrelas dentro de garrafas. As estrelas brilham. A menina com voile acocorada diante do chão imenso acende uma lamparina & cobre-se com um tecido leve e fino] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – [Entristecida] sempre
tenho labutado tanto
sempre
tenho vivido vazantes tantas
sempre
tenho curado cicatrizes tantas
sempre
tenho amado tanto
sempre
                tenho vestido voiles tantos
                                               sempre
tenho acendido lamparinas tantas
sempre
tenho colhido estrelas tantas
sempre
estrelas feito alvoradas tantas
sempre
estrelas feito acalantos tantos
sempre
estrelas feito marés tantas
sempre
tenho rezado pelo mundo
sempre
tenho rezado por meu pai
sempre
tenho rezado por minha mãe
sempre
tenho rezado por meus irmãos
sempre
tenho rezado por mim
sempre
a vida é andança
sempre
a vida é estirada
sempre 


[Breu longo]

[Choro de menino que nasce]


Breviário 2 da peça Dentro é lugar longe | Rudinei Borges | 2013