quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Nossa Senhora Menina ou Poemas miúdos

1.
quero lembrar 
como quem lembra
dum menino
que brincava
com cordeiros
no alto da colina

2.
guardo
o teu acalanto
dentro das tardes
das marés
da violeta-menina
deixo
aberta a porta
o sol entra na casa
e acocora a ventania
toda manhã

3.
toda manhã
meninos plantam
vaga-lumes
no campo minado
e colhem toda manhã
fagulhas fogueiras

4.
toda manhã
meninos garatujam
a terra batida
e correm ladeira
abaixo
com sonhos
luz-
indo

5.
a menina
que plantava roseiras
esta manhã
colheu caracóis

6.
como os caracóis dançavam
ao re-
dor da cacimba da vó Alzira
em tempos de chuva
eu vi

7.
o menino
amava o segredo dos tempos
a calmaria das águas
o silêncio do chão
se embrenhava na mata
voltava
com auroras nos ombros
arrebóis nas mãos

8.
queria
que me contassem
uma vez
que me contassem
em sussurros
que me contassem
os segredos
mais secretos

9.
o silêncio
do meu silêncio
é Estrela Dalva
pequenina
no céu de terça-feira

10.
diz
em sussurros
por onde anda
a tua estrela
cadente
diz

11.
rezo
com a voz das pedras
ao pé do ouvido
creio
ter encontrado Deus
num paiol

12.
terei sede de Deus
no mormaço
das andorinhas

13.
um dia
terei olhos de onça
voo de maracanã-guaçu
voo de choquinha-de-peito-riscado
voo de formigueiro-de-yapacana

neste dia
o vento
dormirá nos meus ombros 

14.
a doença
é uma dança
que vai e vem
dentro do corpo

uma
bailarina

15.
morrer
é um modo
de viver
sem poder
dançar

16.
o passado
escorre pelos olhos
escapa pelas mãos
e quando menos esperamos
regressa
como se dormisse
apenas

17.
vi(ver)
é
(des)acontecer

18.
os que
partem
hora ou outra
sabem
cedo ou tarde
quão
solitários
somos

19.
o corpo
fecunda
na terra
a flor
a fagulha
da tarde

20.
e
depois com um lápis
prenunciar
paredes
jacintos
janelas
tamboretes
panelas
pedras
altares
olhos
pardais
mariposas
vinis
e

21.
e perder pelo braço
e cair pela boca
e descer pelo ombro
e dormir pelo peito
e fugir pela palma da mão

22.
re-
ceio
a seiva/
cio

23.
ad-
vogo
a vertigem/
lodo

24.
era
raio
e
ria
o
sol

25.
mãe

feixes de mar
esculpidos
nos olhos

26.
precisava
dum fio d’água
para amanhar
a tarde
abraçar
a noite
esquecer
que o tempo
tem
pavio curto

27.
amar é disposição
ao desacerto
fazer
dançar
boquiaberta
no coração do tempo
a dúvida
fazer
durar
o que parece ser
um
s-e-g-u-n-d-o
apenas

28.
o pior 
não é perder
ou ganhar
o pior
é o vácuo
 
que se estabelece
entre uma coisa
 
e outra

29.
alumia
no dia ha-
verá
travessia

30.
entre
coragem
e medo
um minuto
meio termo 

31.
queria cantar
um cântico pequenino
um cântico-andorinha
um cântico-curió
um cântico-sabiá
mas não sei
cantar

32.
tornei-me um porto
com barcos
que vão a todos os lugares do mundo



Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014