segunda-feira, 13 de abril de 2015

A sala






















Nesta sala
pobre/
velha
– mais pobre que velha –
a gente do tempo antigo partiu histórias:
algumas felizes,
outras tristes
– umas nem felizes nem tristes.
Nesta sala passaram gerações.
Pairava ali – protagonista – um sofá
remendado milhões de vezes.
Um sofá onde sentaram
meu avô e minha avó,
meus tios e minhas tias,
meus primos e eu,
os filhos dos meus primos
e os filhos que não tive.
Nesta sala velamos nossos mortos.
Vimos mães com dores de parto.
Meninos desenhando primeiros passos
no piso vermelho de cera.
Esta sala foi cheia de gente e conversas e mais gente.
Mas um dia foram embora
meu avó e minha avó, meus tios e minhas tias,
meus primos e eu,
os filhos dos meus primos
e os filhos que não tive.
A gente e as conversas que enchiam a sala
calaram.
Restaram sozinhas
as vozes duma novela de amor
exibida na televisão.

A sala | Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Edouard Boubat