quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cavidade

































: vi o sol se dissipar pelas terras: não era noite: era manhã: um átimo em março: o menino riu-se: vamos  ao deserto (ele disse) quando cessar a tempestade vamos ao deserto (ele disse): folhas secas em alamedas: no outono: quando o mar despejar o sol em desamparo veremos o rapto das roseiras: teremos anos inteiros pela frente: e os sinos e os sinos e os sinos e os sinos: você me disse: vá embora sozinho: não posso ir embora sozinho: não posso deixar cântaros (vazios) sobre tábuas: vamos alumiar frestas do sobrado velho com candelabros ávidos de consternação e partida: toda estrada é  voz de Deus que se alastra pelo areal: toda estrada é cavidade:  

Cavidade| Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014
Foto | Wilhelm Von Gloeden (1856-1931)