quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Água de amolecer coração de pedra

lá no tempo antigo
vó Eva vinha com potes d’água
água de poço fundo
fonte nos fundos da casa
nos fundos do mundo
céu azul de buritizal
céu de pássaro
a dançar samba-caído
céu de sanhaçu, de flautim, de andorinhão
céu de araponga
a se perder de vista a terra, o campo, a peleja
céu de Nossa Senhora Menina
céu de Nossa Senhora das Graças
céu de São Pedro, pescador
água de beber em caneca de barro
água de banhar o corpo
água de benzer a casa
água de molhar espinheiro do deserto
broto de macaúba
água de amolecer coração de pedra
água de menino
a se perder de vista a margem, o barco, o cais
vó Eva que vinha com cantata de sussurros
cantata de novena
reza na frente da casa
defronte da rua
debaixo das árvores
reza de noitinha
às seis horinhas, fim do dia
rosário entre dedos
tamboretes no entremeio do breu
a se perder de vista a luz, a sombra, a travessia
reza aos que foram
ao outro mundo
tão distante o outro mundo
ponte rabiscada num alfarrábio, numa tapera
a Ave-Maria na planta dos pés
na palma da mão
um gole de café
a plantação de milho
arados do vô Alcides
sol de festejo que reina em batuque
a se perder de vista a promessa, o sacrifício, o cio
Menino Jesus que desenha primeiros passos
no chão de barro da casa da vó
Menino Jesus que anda em direção
ao fogão de lenha
à procura de cuscuz de arroz
chá de erva cidreira
Menino Jesus que dorme no colo da vó
na rede da sala
no quarto uma arca com cordéis
Menino Jesus que dorme e sonha
e murmura cantatas de danação
Menino Jesus que vive
no coração de pedra da gente
Menino Jesus que ama o mundo
e a vó e o mundo e a estrada e a vó
lá no tempo antigo


Poema do livro Memorial dos meninos | Rudinei Borges | 2014